Por Valéria Gadioli
O varejo contemporâneo vive sob o signo da integração total. O chamado movimento omnichannel — estratégia que conecta canais físicos e digitais em uma experiência contínua — tornou-se mais do que tendência: consolidou-se como imperativo competitivo. Derivado do latim omni (todo) e channel (canal), o termo evoca uma ambição quase divina: estar em todos os lugares, ao mesmo tempo, para todos os consumidores.
Essa busca por ubiquidade aproxima o varejo de atributos historicamente associados ao sagrado: onipresença, onisciência e, em certa medida, onipotência. Plataformas digitais, inteligência de dados e sistemas logísticos avançados permitem que empresas acompanhem, antecipem e respondam ao comportamento do consumidor em tempo real, criando a sensação de que o varejo “sabe”, “vê” e “está” em todos os lugares.
No entanto, essa tentativa de divinização do consumo carrega tensões. Se, por um lado, o omnichannel promete conveniência, fluidez e personalização, por outro, pode gerar uma experiência invasiva e saturada. O consumidor contemporâneo, longe de ser apenas um ponto de contato, reivindica autonomia, significado e pertencimento. Ele não deseja apenas ser alcançado — deseja escolher onde estar, com quem interagir e como consumir.
Nesse contexto, emerge um paradoxo central: quanto mais o varejo se expande para estar em todos os lugares, maior pode ser a percepção de perda de liberdade por parte do consumidor. A promessa de uma presença total pode se transformar em ruído excessivo, diluindo o valor das interações e comprometendo a autenticidade das relações.
Estudos apontam que a experiência omnichannel eficaz não se baseia na multiplicidade de canais, mas na coerência entre eles. Segundo Verhoef et al. (2015), a integração bem-sucedida depende da centralidade do cliente e da consistência da jornada. Já Lemon e Verhoef (2016) destacam que a experiência do consumidor deve ser compreendida como um ecossistema dinâmico, no qual cada ponto de contato contribui para a construção de valor — ou sua erosão.
No Brasil, o avanço do comércio eletrônico e a digitalização acelerada intensificaram essa dinâmica. Contudo, a valorização de espaços físicos, interações humanas e experiências sensoriais indica que o varejo não pode prescindir do encontro. Mais do que estar em todos os lugares, talvez o desafio seja estar nos lugares certos — aqueles onde o consumidor se reconhece e se sente pertencente.
Assim, o futuro do omnichannel não reside na onipresença absoluta, mas na capacidade de equilibrar tecnologia e humanidade. O varejo que prospera não é aquele que tudo alcança, mas aquele que compreende os limites da sua própria presença e respeita o livre arbítrio do consumidor.
Referências
VERHOEF, P. C. et al. Customer experience creation: Determinants, dynamics and management strategies. Journal of Retailing, 2015.
LEMON, K. N.; VERHOEF, P. C. Understanding customer experience throughout the customer journey. Journal of Marketing, 2016.
KOTLER, P.; KARTAJAYA, H.; SETIAWAN, I. Marketing 4.0: Moving from Traditional to Digital. Wiley, 2017.